Cinema e Invenção (BH)

VISCONTI CAVALLEIRO E A ARTE REINVENTADA

Artista visual, cineasta, sociofotógrafo e antropólogo visual são designações dadas a ELYSEU VISCONTI CAVALLEIRO, autor de ‘Os Monstros de Babaloo’ e ‘O Lobisomem – O Terror da Meia Noite’, além de inúmeros filmes em película e vídeos de documentários sobre artes, folclore e patrimônio cultural.

Trazendo no DNA o micróbio da fuzarca artística, Visconti  Cavalleiro estudou com Ivan Serpa, Oswaldo Goeldi, Roberto Delamonica, entre outros, desenhou em profusão quase que concomitante a falar e escrever. Na época da Escola Nacional de Belas Artes, que passou a se interessar  pelas possibilidades criativas do Cinema e a partir de viagens  para a Europa (França e Tchecoslováquia, principalmente), estudou e conviveu com nomes atuantes da época, daí citar sempre, com intimidade, seus encontros com iguais como Luchino Visconti, Jean Rouch e Pier Paolo Pasolini.

Mago, mito, lenda de um cinema inventado, cinema circunstância, Cinema de Invenção.

Preferimos chamar de Cinema de Invenção – título também do livro de Jairo Ferreira, que trata do cinema desta geração -, no lugar do triste ‘tópico’ Cinema Marginal. Elyseu também, assim prefere. Seu cinema é como o grito de Munch, o ‘grito parado no ar’ de Guarnieri, o ‘Rasga Coração’ de Vianinha, ‘O Gabinete do Doutor Calegari, de Robert Wiene, salto no escuro do tempo que, nos anos 60, 70, 80, era ‘estreitamente vigiado’. Para muitos, ELYSEU antecipa procedimentos do Cinema de Experiência, como o proposto no Manifesto Dogma 95 (Lars Von Trier e outros), ou no cinema do canadense Guy Madim, ou ainda do brasileiro Esmir Filho,  revelado na década passada com ‘Tapa na Pantera’ e ‘Os Famosos e os Duendes da Morte’.

Neto do pintor Eliseu D’Angelo Visconti, que veio criança da Itália para o Brasil entre 1873 e 1875, Elyseu Visconti Cavalleiro herdou aptidões plásticas, como também desenvolveu preparo intelectual e musical que o levaram, inevitavelmente, ao cinema de resistência  dos anos 1970/80.

Assim como o cinema de seus colegas de turma e muitas vezes de produção – Andrea Tonacci,  Rogerio Sganzerla, Julio Bressane e,  entre outros, Neville de Almeida – o cinema de Elyseu Visconti Cavalleiro nasce da imperiosa necessidade de se expressar a qualquer preço, mesmo que fossem necessários os malabarismos mais arriscados e as temáticas mais absurdas para a  manifestação de anseios libertários e de cunho estético.

Muitas vezes incompreensível, o cinema de Visconti Cavalleiro nasce e se desenvolve numa espécie de beco sem saída da História Contemporânea. Herdeiro, como tantos, de uma cultura plástica e literária clássica, vive em sua juventude o paradoxo de uma era de inovações tecnológicas e expressivas que se refletia nas Artes produzidas naquele momento de censura absurda.

Neste sentido, seus longas ‘OS MONSTROS DE BABALOO’ e ‘O LOBISOMEM – O TERROR DA MEIA NOITE’ soam como manifestos (anti) estéticos, mais do que como produções acabadas e embaladas para consumo.

A influência do Expressionismo Alemão em sua fase germinal se faz presente nos desenhos de ‘OS MONSTROS DE BABALOO’, com figurinos assinados por Hélio Eichbauer, assim como nos materiais gráficos de ‘O LOBISOMEM – O TERROR DA MEIA NOITE’, assinado pelo próprio Visconti Cavalleiro. Títulos curiosos e produções idem, que reuniram nomes estelares e profissionais competentes, estes dois longas de Elyseu Visconti Cavalleiro valem mais – em nossa opinião – pela proposta contracultural e pela ousadia do que pelas qualidades plásticas ou de conteúdo.

Esse processo criativo anárquico, do texto para o desenho, do desenho para a fotografia, desenhos de luz, porções de dramaturgia, música e letras reunidas num único e idolatrado Cinema, são o testamento poético de ELYSEU. Um cinema que, independente do texto, simboliza a própria afirmação da Vida sobre a Morte, o brado de liberdade de todos os meios.

Nem todos os envolvidos com aquela nova onda no cinema carioca dos 1970/80 aprovam o rótulo Cinema Marginal  como denominação para seus filmes, apesar deste rótulo ter sido  utilizado em  certo momento por cineastas como  Julio Bressane, Rogério Sganzerla, Neville de Almeida, Ivan Cardoso  e o próprio Elyseu Visconti Cavalleiro. Este cinema inventado, naquele  momento pós-Cinema Novo, propunha-se a  renovar o modo  de fazer cinema e a criar uma catarse da expressão, daí ser chamado, por muitos, como Cinema Invenção.

Assim como outros experimentadores do cinema brasileiro, Elyseu Visconti Cavalleiro merece este resgate que o SESC possibilita através da Via Cultural – modo de conhecermos o espírito andradiano deste ‘carioca de Copacabana’ que junta, numa só obra, o espírito investigativo e generoso de Mário de Andrade e o jeito rebelde, vanguarda e irreverente de Oswald de Andrade, como bem assinala o próprio Elyseu.

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